sexta-feira, 10 de agosto de 2007
























18 anos, nada sei, nada vivi,

chorei algumas vezes,

admito, sorri também! Amei poucos, gostei de alguns, não acho que muitos sofreram por minha causa, nem acredito ter salvo alguém, entrei diversas vezes no meu mundo das idéias, é um bom lugar para se criar personagens e vidas maravilhosas, mas voltar pra realidade é severamente bom.

(nem sempre)

Conheci algumas pessoas boas. Heróis... dá pra contar nos dedos de apenas uma mão. Vesti algumas fantasias que me fizeram bem e me fizeram mal. Dancei diversas vezes sozinha. Não pintei o cabelo. Aprendi uma outra língua. Namorei.

Terminei e não comecei de novo.

Descobri que vinho é bom. Já quis ser palhaço (apesar de hoje ter aversão aos meus possíveis colegas de trabalho), já quis ser freira e lixeira quase de uma vez só. Fiz boas festas. Fiz poucos amigos, mas conheci diversas pessoas. Fiz dança de salão. curso de mosaico. Ballet e Arco e Flecha. Toquei baixo. Masquei muito chiclete. Disse muitas vezes eu te amo pra poucas pessoas. Não tirei minha pinta da ponta do nariz que hoje faz parte de mim como nunca tinha feito. Estudei pouco. Tive notas altas. Escrevi boas histórias e histórias terríveis. Ouvi orquestra e vi danças lindas. Conheci um pouco o mundo e o mundo pouco me conheceu. Sorri a ilustres desconhecidos. Fiz careta pra muita gente tola. Falei pouco palavrão, mas já falei muita coisa, nada de muito valor, admito, afinal o que se pode dizer de valor quando se tem 18 anos?

Vomite-se!

Vomitei as mágoas e ansiedades. Coloquei fim aquilo que não teve começo.
As lágrimas caíram para dentro de mim durante algum tempo. Vomitei-as também.
Vomitei os nomes, as cores, os cheiros. Vomitei ele, ela e todo mundo que havia engolido. Vomitei os murros e chutes não dados, os palavrões não ditos. Vomitei as lembranças perdidas, os arrependimentos. Vomitei meu país, meu RG e cidade.
Vomitei os apelidos e as piadas. Vomitei tudo que me fazia mal e doente. Vi-me finalmente livre...e então, vazia demais... Morri naquele instante que me encontrei feliz.
Logo que a felicidade está em sua destemida busca e não em seu casual encontro.


sexta-feira, 27 de julho de 2007

A Senhora e o Homenzinho

Entrou irreverente no salão. Era uma figura curiosa de senhora. Pois nem o frio lá fora explicava a exuberância do casaco que a Dona vestia. As pérolas, me lembro que comparei as minhas bolinhas de gude que se encontravam no bolsinho do paletó por ordens severas de minha mãe. A pintura na pele não era pra esconder a idade, talvez para distanciar os olhos do salão que a olhavam numa tentativa discreta de serviçais.O perfume importado e que devia acompanhar aquela senhora por no mínimo o dobro da minha idade na época, encheu o salão e deixou-me tonto. Vi minha mãe olhando seus sapatos o que me fez olhá-los também. Sapatos pretos, um tanto grandes para uma dama encasacada e cheirosa. Esses mesmos sapatos que foram se aproximando aos poucos de mim.Recuei para junto das pernas de minha mãe e corajosamente olhei para ela. Era uma distancia tão grande. E então ela me olhou também. Curiosamente, sorriu. Todo o perfume, maquiagem e até o brilho das pérolas ficaram opacos para mim. O brilho daqueles olhos que viram tanto. Eu a olhei por tempo suficiente para que minha mãe me chamasse a atenção. A senhora saiu ainda sorridente.
Um dos homens que carregava suas coisas no dia seguinte me trouxe um cartão e um belo saquinho de bolinhas de gude, de tantas cores e tamanhos que as fizeram inúteis para o jogo. Levei o bilhete para minha mãe que trabalhava na cozinha daquele hotel. Ela começou questionando o saquinho em minhas mãos e logo parou. Levou a mão em sua boca e soltou um gritinho assustado típico de mamãe quando vê ratos. Abraçou-me e sorriu para o nada. No bilhete dizia o que aprendi ler anos depois:
"Ao corajoso homenzinho que encarou a Inglaterra."

A senhora deixou o hotel no mesmo dia.Foi quando ouvi as pessoas do lado de fora gritando: "rainha".

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Mocinha







"Para Sabrina, rotineiramente encantadora"
(parabéns querida!)

De lacinho na cabeça
Um risinho envergonhado
É ela minha mocinha.

Fui ter com ela uma conversa,
Não tinha nada de mocinha
Era essa uma mulher.

E depois dela,
me vi mocinho
sem lacinho na cabeça
mas envergonhado.

Envergonhado, sem dúvida.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Little Wing

"Para Leandro Matsuda, um grande companheiro
para conversas revolucionárias."

Abri os olhos apenas, passara a noite em claro.Minhas mãos suaram constantemente e foram enxugadas no lençol puído que cheirava a suor, a uso constante de vários antes de mim que se encostaram ali. O dia era aquele. Os companheiros todos esperavam de mim a palavra final. A dor de cabeça me mantinha entre aspirinas e as armas pesadas. Um dia em um passado distante me trouxe hoje a esse porão. Sonhara, em minha juventude, em ser músico, tinha ouvido falar em Jimi Hendrix e sua “virtous guitar...”. Mas estava ali e afinava meu único instrumento com pólvora. Gritaram meu nome na sala.Fui até eles. Esperaram uma resposta. Falei algo encorajador que se espera de um líder. Não acreditei em metade das coisas que disse, mas eles gritaram satisfeitos com o discurso. A grande maioria dos companheiros da sala tinham a idade daquele garoto que ouviu o vinil de Jimi na casa de um vizinho.
Toda a banda munida com seus instrumentos, saímos do barraco prontos para tocar.
A pressão na cabeça era constante, apesar das aspirinas tomadas com rum. Os olhos vermelhos e o rosto suado deu sinal. Os instrumentos afinados tocaram lindamente, e o coro de gritos e choros também se apresentava no palco este dia. E de repente cai. Meu corpo ficou quente e mais molhado. Em dias, esse era o primeiro momento que a dor na cabeça passou. Sorri. O som da banda foi ficando cada vez mais baixo. Sorri novamente. Lembrei que não teria uma foto de uma garota bonita no bolso quando me encontrassem, mas aspirinas e um maço de cigarro. Antes de finalmente dormir silabei: “Take anything you want from me, anything. Fly on, little wing.”

quarta-feira, 13 de junho de 2007

O cheiro, o sonho e o cimento

Os móveis pegaram poeira. O carpete continua manchado do vinho que seu pai derrubara por capricho na casa nova do genro. Os jornais começaram a empilhar e depois pararam de vir. A sua idéia de “a luz de velas” faz sentido agora que a energia foi cortada. Não lavei a roupa de cama, não pela preguiça de fazê-lo, mas porque ela ainda tem seu cheiro. Cheiro esse guardado com tanto carinho que não me permito ficar muito tempo enfiado em seu travesseiro. Meu cheiro é tão ruim.
Tua voz rindo estridente e tão irritante me fazia poupar a piada, que seria mais tarde contada apenas aos amigos. A casa não se silencia mais pois há uma porção de pedreiros trabalhando no prédio ao lado. Esses me poupam das poucas horas de sono e me lembram que o mundo ainda funciona. Uns ainda cantam ou assoviam músicas bregas de amor para as mulheres na rua. Parecem felizes ali, com seus assovios e sabendo que passarão a vida toda enterrados no cimento.
Parei de sonhar. Nunca fui religioso, mas pedi para aquele que você rezava, para que voltasse a sonhar. Ele não me atendeu, depois de um tempo parei de pedir. Em alguns momentos volto atrás, mas mesmo assim ele não me atende. Os amigos sumiram. Descobri-me um bom cozinheiro. Mas nunca ninguém experimentou, então não tem como saber se é realmente bom. Talvez eu convide aquela filha do síndico, ela é bem normal. Conheci-a porque seu pai a mandou aqui para perguntar-me sobre as contas de luz.
A risada dela é normal.Um pouco mais grossa que a tua. Os dentes são brancos. Dedos afilados, um pouco compridos demais para mim. Disse que voltaria depois para conversar. Ela é uma das moças que passa e os pedreiros fazem um coro. Olhei-a na rua pela janela cozinha, ela fez uma cara desgostosa aos homens, virou-se para frente e sorriu dissimulada. Você não faria cara alguma a eles. Apenas passaria. Eles assoviariam e gritariam qualquer coisa para que olhasse. E você mais uma vez, apenas passaria.
Os moradores me olham estranho agora. Isso quando os vejo por azar no corredor enquanto recebo o moço do mercado da esquina que me traz as frutas mais amassadas. Semana passada classificaria o leite que o mocinho me trouxe como semi-azedo.

A campainha tocou, era o síndico que parecia um tanto nervoso:
- Olha, a gente aqui do prédio não acha que você está muito bem, mal sai do apartamento, parece esquecer de tomar banho, ninguém nunca veio te visitar. Minha filha me disse que você comentou que sua esposa morava aqui...Mas você mudou pra cá mês passado...sozinho.

Ele fechou a porta. Dormiu ali mesmo no corredor por uns dois dias. Sonhou todo o tempo.Esqueceu-a. E nunca entendeu o porquê dos olhares assustados no corredor e os panfletos de auto-ajuda de baixo da porta...Ah, ele saiu uma vez ou duas com a filha do síndico, mas eles não se entendiam na cozinha.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Faz-de-pérolas

Desejo voltar ao meu mundo lúdico.
Aquele de guarda-chuvas e berinjelas.
Sem feiúras, sem mazelas.
Estaria eu montado em minha zebra colorida.
Ao encontro de uma dama acetinada,
Ora fada delicada, ora bruxa vagabunda.
Uma maçã (in)verde(nada) morderia e aos pés da bruxa calaria.
E quando fada me traria vida novamente.
Num incansável jogo de amor.
Bem como morte que traz a vida e a vida que traz a sorte.
Seguiria os tijolos amarelos até aquele fim indefinido.
E mataria o lobo a pauladas.
Mas então acordaria
Por causa de uma ervilha.
Uma insignificante ervilha amarela que Mendel explicaria.