quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Pela janela






Desenho uma janelinha no papel do bloco de notas. Ela me pergunta o que eu gostaria de ver. Eu respondo:

- Um graveto, um sofá estampado, uma menina ruiva com tranças até os joelhos.

Desejo ver Elvis numa balada romântica, uma plantação de melancia em morro e um macaco cor-de-rosa. Mariachis, galos de briga e mil balões em direção ao sol.

- Peça mais

Disse a janela.




* Convido os poucos leitores a pedirem o que gostariam de ver pela janela. Sem censura!

sábado, 3 de janeiro de 2009

Davi e Golias

Era um gigante de quase dois metros que esbarrou em mim.
Tão pouco tinha de soldado, era talvez covarde demais para isso, mas imagino que tinha um coração grande em contrapartida das mãos. Carregava algo de suspeito nos ombros largos e um tanto caídos. Algo que me fez sorrir algumas vezes enquanto pensava na batalha.
O problema dele era viver nas alturas e me fazer tão distante do céu.
E aborrecidamente cansada de preparar grandes planos e frases perfeitas enfrentei o gigante sem armas.
Era evidentemente desvantajosa essa guerra, porém por um desatino imaginei que seria bom sentir a nuvem nos pés de novo (mesmo que essa nuvem fosse se tornar apenas uma garoa de fim de tarde).
Recolhi os pedregulhos que vi no meu caminho e os lancei o mais forte e mais certeiro possível. Errei.
O gigante não caiu e eu?Bem, eu não cai também, mas meu palpite sobre ele foi perdendo alguns centímetros no caminho de volta para casa.
Às vezes, é assim mesmo, as histórias da bíblia são apenas histórias, mas Deus permita que meus pés não se contentem com algodão e o gigante...O gigante ainda será um grande homem, ele só não pode se esconder nas alturas.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Um adeus ao casaco vermelho

Não é mais o casaco vermelho que caminha pela cidade. Ele agora está no armário fingindo pegar poeira.
Em seu lugar seguem óculos escuros herdados do pai, aqueles mesmos óculos vindos da Europa a vinte e poucos anos, que a filha tão estranha consertou a perninha quebrada pelo tempo e mesmo assim, eles tão persistentes continuam a cair de seu rosto.
Eles caminham protegidos por uma nova sombrinha, não mais amarela – que se quebrou como tantas outras coisas na menina – mas, uma engraçadinha de bolinhas rosa.
Então, óculos e sombrinha agora agasalham a sardenta mocinha do sol.
Metáfora? Não.
Outro dia seguindo para casa, avistei novamente aquela mesma árvore que propus num outro escrito como “uma árvore grande e desnuda pela estação”. Ela continua grande mesmo parecendo miúda junto a uma releitura de Babel.
Então, agora a descrevo assim: Uma árvore grande que cansada de ser nua, costura cada folha à espera da próxima estação.
Flores? Não, é apenas verão.
Metáfora? Talvez – mas a menina continua a não gostar de sol e acompanha tudo em visão sépia.

domingo, 30 de novembro de 2008

Moça Amarela

“Supera!” dizia a moça amarela a sua sombra.
“Supero, claro que supero, quando você quiser superar” respondeu a sombra.
A moça amarela desembestou a chorar “Não consigo, não imagina como gostaria” “Mentira!” gritou a sombra. “Como é?” Replicou a menina.
A sombra diminuiu o tom de voz “É mentira, você sabe que se quisesse, de verdade, superaria”.
A moça respirou pensativa “Então me ajude, dê-me ordens e eu as cumprirei!”.
“Mas eu sou apenas uma sombra” respondeu ela sorrindo.
“E eu sou apenas uma moça amarela pedindo ajuda a minha sombra.”
A sombra se ajeitou na parede e começou a falar rapidamente “Primeiro, coma três quilos de farinha para secar as últimas lágrimas. Queime os lábios com brasa quente para apagar toda a sensibilidade de sua memória. Quebre os espelhos de Narciso e respire embaixo d’água para evitar perfumes. Costure com linha grossa suas pálpebras para parar de ver sentido em tudo aquilo. Corte com tesoura de prata suas cordas vocais para esquecer o som das tolas palavras de amor que disse. Goteje duas partes de oceano nos ouvidos para afogar os sonhos. Bem, acho que isso será suficiente.”
A moça amarela chorava convulsionadamente “E o que faço com o coração?”.
Ela hesitou por meio segundo, mas disse “Remova-o!”.
“E o que serei eu?” sussurrou a moça amarela.
“Uma sombra”.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Ranger os dentes não basta, nem mesmo
Aliviar a dor com músicas tolas.
Isso é ilusão,
Mas, se queres a verdade,
Uma que não seja lá, muito fácil de ouvir, te digo:
Não se trata
De você! É
O pobre do homem que com medo de desperdiçar lágrimas...
...enxuga poesias.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Conto-de-tolo

Arremessa os sapatinhos 39 pela janela,
Despenca com eles a esperança de um "Felizes para sempre"
Aquela mesma janela da loura trança
Que jura só sentir dor quando
Nenhum a toma e sobe ao leito.
Pobre moça que finge dormir tranqüila,
Em busca de qualquer beijo, qualquer um
Que tenha se perdido pelo ar
E não se negue a despertar a moça acordada.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Malas desfeitas

Volto, volto sem saber por que voltei
Volto para repegar tudo que deixei
Recolho do chão a louça quebrada na parede
e limpo da taça a mancha do vinho quente.
Caminho em direção às margens do papel Canson
e afogo-me nas gotas homeopáticas deliberadas
pelo homem a minha frente.
A verdade é que não sei porque deixei meu pranto
queimar minhas palavras virtuais.
Elas, que passivas, não me abandonaram,
elas que tão sinceras não se apaixonaram.