“Supera!” dizia a moça amarela a sua sombra.
“Supero, claro que supero, quando você quiser superar” respondeu a sombra.
A moça amarela desembestou a chorar “Não consigo, não imagina como gostaria” “Mentira!” gritou a sombra. “Como é?” Replicou a menina.
A sombra diminuiu o tom de voz “É mentira, você sabe que se quisesse, de verdade, superaria”.
A moça respirou pensativa “Então me ajude, dê-me ordens e eu as cumprirei!”.
“Mas eu sou apenas uma sombra” respondeu ela sorrindo.
“E eu sou apenas uma moça amarela pedindo ajuda a minha sombra.”
A sombra se ajeitou na parede e começou a falar rapidamente “Primeiro, coma três quilos de farinha para secar as últimas lágrimas. Queime os lábios com brasa quente para apagar toda a sensibilidade de sua memória. Quebre os espelhos de Narciso e respire embaixo d’água para evitar perfumes. Costure com linha grossa suas pálpebras para parar de ver sentido em tudo aquilo. Corte com tesoura de prata suas cordas vocais para esquecer o som das tolas palavras de amor que disse. Goteje duas partes de oceano nos ouvidos para afogar os sonhos. Bem, acho que isso será suficiente.”
A moça amarela chorava convulsionadamente “E o que faço com o coração?”.
Ela hesitou por meio segundo, mas disse “Remova-o!”.
“E o que serei eu?” sussurrou a moça amarela.
“Uma sombra”.