quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Do dicionário

Saudade é coisa que vem sem pensamento.
Saudade é sensação involutária.
Saudades cresce mesmo quando se está dormindo.
Saudade silenciosa que não cala.

Elefante branco

Dentro de um edifício branco, em frente a um elevador.Foi assim que nos despedimos. Silêncio. Cheiro de reforma. Minúsculos pedacinhos de reforma no piso novo. Porta sem verniz. Luzes amarelas quases virgens.
Colocou música no meu ouvido direito. Colocou música no seu ouvido esquerdo. E antes que me desse conta, eu ensaiava passos tímidos abraçada a sua camisa xadrez. Foi assim que nos despedimos. Depois, entrei naquele elevador e fui direto pro Brasil.

No meio de voltar

E sobre tanta coisa que eu deveria falar, fico sem nada para escrever. Já se foi o ano passado, os meses, os aviõs, meu sotaque. Cadê eu?
Nunca acreditei nessa de universo paralelo. Nunca acreditei até agora. Cadê eu?
Nao sei. Pergunta básica que eu não sei responder. Por favor, não tente algo mais difícil. Cadê eu?
Posso responder em frente ao computador, sentada num sofá sobre o qual já escrevi (talvez o ano passado...Retrasado)? Sim.
Posso responder que estou voltando? Sim.
Posso responder que estou no meio da viagem, entre a porta que bati às minhas costas e aquela que abri a minha frente? Sim
Entende agora onde eu estou? Ou voce se cansou de me esperar chegar, cansou de abrir essa porta e ver outubro do ano passado que já tinha passado? Tudo bem. Eu cansei.
Mas eu estou chegando.
Volta aqui, vamos conversar. Você, um dia, já gostou de mim.
Cadê eu?
Cadê você?

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Outubro passou...

A primavera me trouxe alguém.O sol veio, finalmente. Este sol que risca, uma vez ou outra, as pontas dos pés desse homem. Estamos jogados na varanda.Ele respira fundo, e minha cabeça sobe e desce em seu peito. A construçao da frente rompe, todo tempo, o silencio. Sao centenas de homens de capacetes coloridos erguendo um edificio ostentoso.Um lego gigante e seus "playmobils" sem rosto.
Volto meus olhos aos pés desse homem ainda soltos para fora do nono andar.Sao estes os pés do homem que amo. Sao estes os pés que esquentarao meus pés mais tarde. Obrigada Deus por meus pés gelados. Obrigada Deus pela orquestra celestial que bate martelos logo ali, naquela esquina. Obrigada Deus por outubro.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Santiago

Eis que me ataca uma dúvida cruel. São 7 horas da manhã e o despertador toca.Calço meu tênis de corrida e saiu. Apesar do meu esforço em correr cada vez mais rápido, a dúvida me persegue por todo o parque e igualmente cansada, sobe as escadas e volta comigo para casa. Ela se ducha na água morna sem pressão, e quando por um instante, penso que finalmente se foi pelo ralo junto com meus cabelos; é, justamente, ela que entra atrasada no metrô lotado.
A dúvida grita meu nome e finjo não escutá-la.
Então, ela grita mais alto e eu, constrangida e dividida entre Baquedado e Salvador, aumento o volume da música.
As portas do metrô se fecham e observo meu reflexo no vidro. Estou cansada. Pareço cansada. Lembro da noite passada e da tal dúvida cruel atacando meus pés gelados.
O metrô pára, abrem-se as portas e eu finalmente saiu. Ela segue ao meu lado e finalmente toma-me a mão. Eu desisto de fugir – ela rouba minha atenção e bebe meu café – e o dia passa.
Depois de tantas horas juntas, eu estou feliz com sua companhia e já não me lembro mais porque fugia. Rimos e dançamos no apartamento sem móveis.
E sem se despedir, ela some!
E no mesmo instante que some, eu abro uma caixa de texto e escrevo: Eis que me ataca uma dúvida cruel.

domingo, 15 de agosto de 2010

meu corpo de homem

Amo o corpo do homem que amo. Amo o espírito do homem que amo. Nao amo nenhum outro. Só um.
Amo um corpo que nao deseja meu corpo. Amo um espírito que já nao mais existe. Um espírito que virou poeira. A mesma poeira que entra pela janela e irrita meus olhos tristes. Estou sozinha. Sem o corpo que amo, sem o espírito. E é nesse instante que o ar acaba, o peito dói e a cabeça desiste.

terça-feira, 29 de junho de 2010

La extranjera II

Vuelvo al café que me odia.
Y él cuando me ve, grita:
- ¡La chica tonta!
Siento que tal vez una lagrimita
Quiera partir de mi ojo izquierdo.
Pero río.
Él se enoja. Grita más fuerte:
- ¡La chica tonta!
Yo río más fuerte.
Él se tira a mi camisa blanca.
Silencio.
La taza toca el piso.
El café se fue.
Mi camisa se fue.
Resta yo.
Tal vez con el pecho,
Por primera vez,
Cálido.